DEMOLIDOR DA NETFLIX

A DIFícil arte de unir fantasia

e realidade

Na série do Demolidor, Netflix dá uma aula de como tornar

o universo dos super-heróis mais realista.

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POR MAX SOUZEDO - 17/12/2015

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Na série Demolidor da NETFLIX, o advogado Matt Murdock vive um dilema: combater o crime usando os meios oficiais, na base da lei, ou quebrar as regras e usar suas habilidades fantásticas para combater os criminosos à força. E é isso que permeia todo o tom da série: o conflito entre a realidade ( as leis, o drama social, as falhas de caráter, a política, a corrupção e as regras da vida real ) com o mundo fantástico dos SUPER-HERÓIS.

 

É a primeira vez que vejo o universo dos super-heróis ser tão REALISTICAMENTE bem retratado nas telas, muitos vão dizer que Christopher Nolan já havia feito isso com BATMAN, mas esse realismo não era tão realista assim, o que não é o caso com o DEMOLIDOR, uma espécie de Batman dos pobres, sem a grana bilionária de Bruce Wayne, sendo um advogado cego que defende gente humilde e comum de graça num bairro decadente, que tem habilidades pouco extraordinárias como um RADAR natural, olfato e audição super aguçados como a de um cachorro e um incompleto treinamento ninja. Mesmo assim se tornou um dos personagens mais surpreendentes e admirados no mundo dos quadrinhos! E consegue surpreender igualmente nesta série da NETFLIX.

Série DE DEMOLIDOR REVELA UM LADO MAIS REAL, SOMBRIO E VIOLENTO DA MARVEL

Como fazer uma Série de super-herói

ficar realista sem cair no ridículo?

Fazer uma história de fantasia se tornar mais realista, é um feito bastante difícil, ainda mais se tratando de super-heróis com seus uniformes coloridos, máscaras e colans que mais parecem fantasias de carnaval ou roupas sadomasoquistas, além de evitar clichês clássicos deste meio. Para isso destacamos os principais feitos que fizeram esta série unir tão bem realidade e fantasia:

 

UM UNIVERSO MAIS SOMBRIO, VIOLENTO E LIMITADO AO MUNDO REAL

 

Fujindo totalmente do padrão que a MARVEL estabeleceu para seus filmes, cheio de efeitos especiais, lutas megalomaníacas e piadinhas de cinco em cinco minutos , DEMOLIDOR surpreende com a violência, o ar sombrio e cenas de lutas reais sem uso de câmera lentas, CGI ou malabarismos estilo Matrix que desafiam a gravidade.

 

Este DEMOLIDOR bate mas também apanha e muito! Tanto fisicamente como psicologicamente. Apesar de ter poderes e ser um homem sem medo, Matt Murdock sofre com sua insegurança entre ser um advogado e um vigilante, há uma preocupação em não tornar seu personagem acima dos demais, veja a cena em que ele luta com uma gangue russa, sem cortes, sem efeitos especiais e pirotecnias acrobáticas, combine isso a uma fotografia sombria, seca que foge do estilo estabelecido por BATMAN / TIM BURTON e vai mais na linha DAVID FINCHER / CLUBE DA LUTA. Pronto temos o ambiente realista que o Demolidor tem que enfrentar.

CENA DE LUTA EM QUE MATT MURDOCK ENFRENTA SOZINHO UMA GANGUE DA MÁFIA RUSSA.

DEMOLIDOR SEMPRE FOI UM PERSONAGEM DOS BASTIDORES

DO UNIVERSO marvel. UM SUPER-HErói de bairro que pouco participou das grandes sagas. mas  ganhou destaque graças

a frank miller, que mostrou

o quão incrível pode ser

um personagem assim.

RESPEITO AOS QUADRINHOS E REFERENCIAS AO UNIVERSO MARVEL DO CINEMA

 

A série soube respeitar bem o personagem dos quadrinhos e seu universo, sem perder

a proposta de ser uma série de drama realista, ao longo dela vão sendo citados, de forma bem sútil, eventos que aconteceram no filme dos Vingadores, como a invasão alienígena em Nova Iorque, que trouxe uma onda de destruição na cidade, inclusive em Hell's Kitchen (Cozinha do Inferno, bairro em que vive o Demolidor), originando o enredo da trama onde o Rei e seus aliados se aproveitam disso para expandirem seus negócios. Mas tudo é tratado de forma tão subjetiva que mal percebemos. Seria muito interessante se a série, talvez na segunda temporada, mostrasse em segundo plano algum Vingador riscando os céus de Nova Iorque ou talvez, quem sabe, uma participação especial da Viúva Negra numa história.

 

A série teve como base também as histórias escritas por Frank Miller, principal responsável pela construção do personagem nos quadrinhos e de seus vilões como o Rei do Crime, Elektra, o Tentáculo e o Mercenário (que provavelmente deve aparecer na segunda temporada).

vilÕES mais humanizadoS: ONDE O BEM E O MAL ASSUMEM TONS DE CINZAS

Outro elemento que contribui é a humanização dos personagens, principalmente os vilões, que são cruéis e violentos mas que também amam, sofrem e são vítimas em alguns momentos. Especialmente o Rei do Crime, que apesar de ser frio e calculista,  quer ser um benfeitor, recuperar seu bairro, ser respeitado e amado pela opinião pública. Interpretado de forma impecável por Vincent Donofrio, seu Wilson Fisk é um homem perturbado pelo passado violento de crimes, mas ao mesmo tempo amoroso com sua esposa, com boas intenções, porém implacável e cruel com quem

tenta se impor aos seus objetivos.

A série dá algo novo na personalidade de Wilson Fisk, que tem que lutar não só contra a lei mas também contra o crime, no qual ele tenta segurar o impeto criminoso de seus sócios. Este Wilson Fisk se recusa a ser o Rei do Crime.

Já seus sócios vão desde uma violenta gangue da máfia russa, passando por um contador inescrupuloso Leland Owsley, até uma velha chinesa com poderes místicos e uma misteriosa seita ninja. Todos porém retratados de uma maneira mais sútil e realista

MAIS importância PARA OS PERSONAGENS COADJUVANTES

No mundo dos super-heróis quando se trata de coadjuvantes leia-se: pessoas comuns, sem poderes, que geralmente são meros espectadores ou vítimas dos conflitos entre protaganistas superpoderosos. Mas é justamente o contrário que acontece aqui, os coadjuvantes participam de forma bem mais ativa, procurando agir à sua maneira, utilizando as armas que dispõem e se tornando os verdadeiros heróis da série.

 

Enquanto Matt Murdock se vê perdido em combater o crime como Demolidor esbarrando nos limites da lei, Ben Urich, Foggy Nelson e Karen Page utilizam dos

seus talentos como jornalistas e advogados para tentar combater Wilson Fisk, mesmo pagando um alto preço por isso. Tudo embalado as boas interpretações de seus personagens.

Foggy Nelson é o melhor amigo e sócio de Matt Murdock. Muito parecido com o personagem dos quadrinhos, mas  na série recebeu uma roupagem mais moderna e menos boba.

Karen Page nas HQs é um love affair de Matt Murdock, mas aqui na série ela está envolta em combater o crime organizado, onde sua atuação é mais ativa e dramática

Ben Urich é um jornalista investigativo que desconfia de Wilson Fisk e com ajuda de Karen Page quer desmascará-lo perante a opinião pública.

ESCOLHER O MOMENTO CERTO EM QUE A REALIDADE DÁ LUGAR à fantasia

Em um dado momento Matt Murdock diz a Foggy Nelson: "Este é o momento em que a lei chega a um limite, onde as regras tem que ser quebradas para combater o mal."

Em suma é o momento em que é preciso deixar de lado a realidade e se entregar a fantasia.

 

E este é o momento mais delicado da série, que consegue trabalhar muito bem esta mudança, sem exagerar, indo aos poucos, até chegar num crescente.

 

Quando Matt Murdock veste pela primeira vez o uniforme do Demolidor, para sua luta final contra Fisk, ele assume de vez o manto do super-herói.

 

Paralelamente o mesmo acontece com Wilson Fisk, assumindo o lado supervilão: crescendo sutilmente de tamanho, se tornando mais frio, irracional e violento.

 

O resultado? Temos o clássico embate entre super-herói e supervilão, digna de uma história em quadrinhos! Com direito a diálogos e pancadaria, porém sem perder o tom realista.

 

Em suma Demolidor é uma série a frente das demais, pois conseguiu ser ousada e mostrar que pode fazer um gênero de super-heróis ser levado a sério e fazer parte do nosso mundo real.

E que venha Jessica Jones e a segunda temporada para consagrar isso.

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